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GUSTAVO MINERVINO SOUZA FERREIRA

ACABARAM AS CHIBATAS, MAS OS NEGROS CONTINUAM MORRENDO

Após a Lei Áurea, assinada em 13 de maio de 1888, pela princesa Isabel, marco do fim da escravidão, sendo o Brasil o último país independente a findar este sistema, os negros libertos foram buscar moradia em regiões precárias e afastadas dos bairros centrais das cidades.

Naquela ocasião, fim do século XIX, diversos setores da sociedade brasileira que se mobilizaram na campanha abolicionista, em um projeto de modernização conservadora que não tocou nas grandes propriedades pertencentes aos grandes latifundiários, abandonou os negros à própria sorte, sem a realização de reformas capazes de integrar os libertos a sociedade.

A mencionada campanha abolicionista foi extremamente importante no contexto histórico do nosso país, eis ter sido, segundo a história, a primeira manifestação coletiva a mobilizar pessoas e a encontrar adeptos em todas as camadas sociais brasileiras. No entanto, não houve uma orientação destinada a integrar os negros às novas regras de uma sociedade baseada no trabalho assalariado. Não se trata de vitimismo, mas tal conduta histórica expôs os negros à margem da sociedade, diga-se em contexto generalizado.

Esta é uma parte da história de tragédias, descaso, preconceitos, injustiças e dor, uma ferida aberta que o Brasil traz consigo até os dias de hoje.

Se adequa ao contexto a canção da banda O RAPPA, quando menciona que "todo camburão tem um pouco de navio negreiro", bem como, o grupo de rap RACIONAIS MC’S ao ser veemente na explanação chama o feito a ordem e diz que “...o preço, a cobrança, o amor, o ódio, a insana vingança” são sentimentos diários absorvidos pelos negros". Reitera-se, não é vitimismo e nem “mimimi”, contudo, ainda que fosse, vale muito a reflexão.

As mortes de Moïse Kabagambe, jovem congolês, refugiado político e, Durval Teófilo Filho, pai de família, que chegava em casa quando um militar atirou três vezes ceifando a sua vida, só comprova que a carne mais barata do mercado é a carne negra, conforme manifesta Elza Soares na canção “A Carne”. Ademais, a quantidade de negros presos injustamente vem se multiplicando até na fila do pão.
 
Revivendo a história, nota-se que a casta superior foi exonerada da responsabilidade e segurança dos libertos, o Estado, a Igreja ou qualquer outra instituição, ainda nos tempos atuais, se eximem da obrigação de responder por suas ações e omissões. Faceta extrema e cruel.
 
Afinal de contas, quem deseja pertencer a um projeto de exploração e preconceito? A diferença histórica que envolve o contexto racial no Brasil, evidencia um país sem povo, sem identidade, onde cada um olha para si sem compreender o que é do outro. Um país sem povo é terra fértil para os verdadeiros exploradores e oportunistas.
 
A história deve ser compreendida de maneira contemporizada, oportunizando a todos, visto que, os consensos não são definitivos quando se trata de ciência humana. Revisões são necessárias quase sempre. Por tal razão, serve a afirmativa que não é vitimismo, eis não existir o dono da verdade, pois a arrogância não deve ser uma essência do seu autoritarismo.
 
O racismo, sem dúvidas nenhuma, é a maior chaga social brasileira. É um problema real, causado por pessoas reais em uma sociedade real. Não é conversa ao vento. Não é só parar de falar que ele some.
 
O racismo não deve ter lado político, a sociedade deve compreender o tamanho do debate e se colocar à disposição para o contraponto oferecendo alternativas ao invés de negar a existência desse problema.
 
Um debate sério, importante e urgente que resulta em desigualdade social, uma perspectiva legitima e uma homenagem à memória de todos os negros que diariamente refletem essa esperança, esperança de dias melhores, esperança que o racismo não irá servir de eco para negacionistas e ideólogos.
 
O negro, não deve viver pelo passado e nem em um mundo particular. Deve viver pela beleza e estilo, ser firme quanto aos seus interesses. Deve cultivar o mesmo jardim acessível a todos. Cultivar o universo comum e compartilhar com as pessoas que respeita e ama a plenitude de uma sociedade toda sua que logo a densidade demográfica irá superar.

Gustavo Minervino Souza Ferreira é advogado, especialista em Políticas Públicas e Ciências Criminais.

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